ENSAIO

ENSAIO: Expressando as ideias da alma

By Mateus Gomes - TCW Gaudiorum


Sempre escondeu tudo de mim. Falar sobre qualquer coisa era um obstáculo imenso, seja por desconhecimento próprio sobre o que eu queria abordar, seja por achar aquele assunto inútil para si mesmo que isso fosse fortalecer nossos laços. Tudo lhe era penoso. E eu ficava ali, do outro lado, pensando: sobre o que vamos falar, então?

Não tinha nenhum recato e também não possuía interesse pelas coisas pitorescas, pela literatura ou pelas artes. Não serei desonesto: já vi desenhos de sua autoria num caderno e, apesar da falta de habilidade, conseguia fazer algo. Não tinha prosa na língua, nem entusiasmo para fazer valer o que chamávamos de amor. Quando alguém lê livros de qualidade e reflete sobre eles, absorve uma bagagem de assuntos que se tornam oportunos com diversos tipos de personalidades. Eu, no entanto, nunca dei importância à sua falta de interesses elevados. Abri mão de tentar dialogar, porque estava disposto a falar sobre nada para agradar a quem tanto estimei. Eis o problema do homem cego pelo amor.

Exercitei a virtude da humildade e da temperança. Não posso afirmar que as pratiquei de fato, pois exercitar é diferente de praticar; mas, na prática, eu não cobrava aquela conduta culta. Ser culto em um relacionamento me parece vulgar. Não é extravagante ou antigo, só julgo ser imprudente. Se os dois alimentam com recato e nobreza o amor, a paixão e o carinho, não irei me opor a esse tipo de conduta. Aí há algo sublime.

No fim, não pude continuar alimentando aquilo. A sensação era a de que, no fundo, não queria ser conhecido por mim. E um relacionamento é o avesso disso: é uma entrega total de duas pessoas que decidem ser abertas uma com a outra. O que é o amor senão sacrifício? Pois bem: era o contrário que acontecia entre nós.


Nunca entendi, e ainda não entendo, o que de fato queria. Não sei se me amava. Suspeito que amava era a si próprio e isso não é o tipo de coisa que se espera num namoro ou casamento. O verdadeiro amor consiste num esvaziamento total de si, a ponto de se doar pelo parceiro, e essa atitude deve ser mútua. O resultado disso tudo foi um basta de minha parte.

E, após essa reflexão sobre uma experiência que não tem nada de individual — e com o intuito de impactar diretamente o leitor —, posso concluir o seguinte: percebo, mesmo pertencendo a ela, uma falta grave de nossa geração (Z), é a difusão de uma certa inversão perigosa. Agora, todos se armam com o direito absoluto ao próprio espaço, ao próprio eu e sim, é preciso tê-lo. Mas esse culto ao individualismo está abrindo brechas para toda sorte de fuleiragens, disfarçadas de "autocuidado" ou "auto-preservação". O que era para ser um equilíbrio tornou-se uma barreira. E o amor, sem doação, vira apenas um acordo de coexistência. O amor está reduzido a um pacto de não agressão onde ninguém se entrega e são capazes de se livrar de qualquer relacionamento pela causa mais ínfima.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

POEMA - TUDO SE TRANSFORMA

Civilização: O Dom do Brasil é a Fé