POEMA - TUDO SE TRANSFORMA


Você já sentiu que certos lugares carregam uma presença que já foi embora? Já teve a impressão de que uma praça vazia ainda está esperando alguém?

Escrevi esse poema num daqueles momentos em que o coração carrega um buraco enorme, cheio de um vazio agoniante. Creio que é justamente nesses instantes de solidão que a consciência martela os sentidos e interpreta a realidade com mais clareza. É aí que conseguimos criar uma arte fidedigna. Quando alguém que caminhava comigo decidiu parar, enfrentei uma tristeza silenciosa. Eu não me achava melhor que todos para merecer a atenção dessa pessoa, mas a estimava profundamente. Visitamos praças, passeamos em bosques e nos perdemos em nós mesmos. O que ficou foram memórias suaves: nem raiva, nem mágoa — só aquela sensação de que a ausência também tem cheiro, cor e lugar. O poema é sobre isso: Transformação. O que permanece mesmo quando tudo muda e o que muda quando tudo permanece.

Convido aqui a essa leitura:

A praça vazia
Ainda está lá,
Com plantas balançando
No mesmo lugar.
A luz atravessa
A poeira no ar,
Como se esperasse
Alguém voltar.

Tudo permanece,
Mesmo sem se amostrar.
Tudo permanece,
Mas vive a mudar.
Bem devagar,
No tempo que vai,
Nada é igual,
Mas tudo ainda está lá.

As marcas na grama
Ainda estão lá,
Mesmo que a chuva
Tente apagar.
O cheiro da flor
Que secou no verão
Volta no ar
Quando muda a estação.

Tudo permanece,
Mesmo ao se perder.
Tudo se transforma
Pra não esquecer.
Fica escondido
No jeito de olhar,
No som do silêncio
Que insiste em ficar.

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